sábado, 1 de junho de 2013

Anta-comum (Tapirus terrestris)

ZOOLOGIA - 74
CLASSE DOS MAMÍFEROS - 19
ORDEM PERISSODACTYLA - 1
FAMÍLIA TAPIRIDAE - 1
GÊNERO TAPIRUS - 1


ESPÉCIE: Anta-comum (Tapirus terrestris) - Linnaeus, 1758 [VU].

              A Anta-comum ou Anta-das-terras-baixas (tradução de lowland tapir, em inglês) (nome científico: Tapirus terrestris), vulgarmente conhecido como Anta, Anta-gameleira, Anta-sapateira é um mamífero da ordem Perissodactyla e da família dos tapirídeos, que são os únicos perissodáctilos da América. Ocorre na América do Sul, principalmente e florestas perto de cursos d'água.

              Possui até 300 kg de peso e 108 centímetros de altura, e é o maior mamífero da América do Sul. Possui uma probóscide, que é usada para coletar alimento. É um animal frugívoro, e tem um papel importante na dispersão de sementes, principalmente na Amazônia. Seus predadores são grandes felinos, como a onça-pintada e a suçuarana, além do homem.

              A anta é listada como "vulnerável" pela IUCN. Desapareceu no limite sul de sua distribuição geográfica, da Caatinga e das regiões próximas aos Andes. Isso se deve principalmente à perda de habitat e à caça predatória.

Etimologia
              "Anta" deriva do termo árabe lamTa. "Tapiira", "tapir" e "tapira" derivam do termo tupi tapi'ira, "semelhante à anta". "Tapiretê" deriva do tupitapire'tê, "tapir verdadeiro".

Taxonomia e evolução

              A Anta-comum pertence a Ordem Perissodactyla, Família Tapiridae e Gênero Tapirus, e foi descrita por Carl Linnaeus em 1758. São reconhecidas quatro subespécies:

Subespécies:
  1. Tapirus terrestris aenigmaticus (ocorre no sudeste da Colômbia, leste do Equador e nordeste do Peru), 
  2. Tapirus terrestris colombianus (ocorre no norte da Colômbia), 
  3. Tapirus terrestris spegazzinii (ocorre no sul do Brasil, Mato Grosso, leste da Bolívia, Paraguai e norte da Argentina) e 
  4. Tapirus terrestris terrestris (ocorre no Suriname, Guiana Francesa, BrasilVenezuela e na província de Misiones, na Argentina).

              Estudos filognéticos, usando sequências do gene da enzima mitocrondial citocromo c oxidase II, demonstraram que a anta (Tapirus terrestris) é mais aparentada à outra espécie sul-americana, Tapirus pinchaque. Essas duas espécies tiveram um ancestral comum, que chegou na América do Sul pelo istmo do Panamá, há cerca de 3 milhões de anos.

              O registro fóssil mostra que o Gênero Tapirus surgiu na América do Sul entre 2,5 a 1,5 milhão de anos atrás, na Argentina. Os mais antigos fósseis da Anta-comum datam do Pleistoceno e foram encontrados na região do rio Juruá, no AcreJacupiranga e Jaupaci.

Distribuição Geográfica e Habitat

              A Anta ocorre desde o sul da Venezuela até o norte da Argentina, habitando também o Chaco paraguaio e todo o Brasil. Sua distribuição diminuiu nos limites sul, na Argentina, principalmente por conta da caça e perda de habitat. Provavelmente foi extinta na Caatinga e no Chaco seco, de forma que agora ela está praticamente restrita à áreas mais úmidas no Pantanal e Amazônia. É provável que suas densidades fossem sempre baixas na Caatinga, ocorrendo em apenas algumas áreas úmidas em zonas de transição desse bioma com outros, como a Mata Atlântica.

              Habita áreas florestadas ou abertas próximas a cursos d'água permanentes. Pode ser encontrada até 1.500 metros de altitude, no Equador, e em outras localidades, até 1.700 metros. Durante o dia se abriga nas florestas e à noite vão paras descampados forragear. Florestas de palmeiras constituem um habita importante. Em áreas fragmentadas, a anta pode ser encontrada em campos cultivados e em plantações de Eucalyptus, provavelmente utilizando essas áreas de forma oportunista, seja como corredor entre fragmentos de floresta, seja para procurar comida.

Descrição
              É o maior mamífero netropical, medindo até 108 centímetros de altura e 300 kg de peso. É distinguível dos outros tapirídeos por possuir uma crina, que vai desde o pescoço até a fronte da cabeça, que fica em cima de uma crista sagital, que faz parte do topo do crânio. Essa crista sagital possui um padrão único no desenvolvimento, emergindo do topo do crânio, e não a partir de cristas parassagitais no osso temporal, como nas outras três espécies de tapirídeos. O desenvolvimento dessa crista está relacionado ao tamanho do músculo temporal, que é muito desenvolvido e extenso em sua origem, mesmo em recém-nascidos. Fêmeas podem chegar até 221 centímetros de comprimento e machos até 204 centímetros. A pele é mais grossa na nuca, e abaixo da epiderme há uma camada de tecido fibroso. Os adultos possuem uma cor marrom escura, ao passo que os juvenis são marrons com listras horizontais brancas.

              A fórmula dentária é 3/3, 1/1, 4/3-4, 3/3, totalizando entre 42 e 44 dentes. Os incisivos possuem forma de talhadeira: o terceiro incisivo superior se parece com um canino e o terceiro incisivo inferior é reduzido. Os caninos são cônicos e separados dos pré-molares por um diastema. Os pré-molares são muito semelhantes aos molares. Os molares são lofodontes, visto ter uma dieta frugívora. Trata-se de uma dentição não especializada em se alimentar de gramíneas, como se observa nos cavalos.

              Possui uma probóscide, usada para pegar frutas e folhas. A probóscide não tem parte óssea e nem cartilaginosa, e nem uma musculatura intrínseca. Em contrapartida, o tecido do lábio superior é adaptado de tal forma que permite o surgimento de uma estrutura móvel e flexível. Os músculos envolvidos na movimentação da probóscide são os músculos levantador do lábio superiorlevantador nasolabial, levantador do ângulo da boca e nasal lateral. A probóscide da anta-comum é a mais curta dentre todos os tapirídeos.

              É um ungulado não-ruminante, possuindo um intestino típico de animais fermentadores, como o cavalo, com um ceco bastante desenvolvido. Como os outros perissodáctilos, perdeu o primeiro dígito dos membros anteriores, e apoiam o peso do corpo apenas no terceiro dedo. O segundo e terceiro dedos são menores, e o quinto dedo não toca o chão, a menos que caminhe em ambientes arenosos ou demasiadamente lamacentos.

              Foi constatada a presença de ectoparasitas, como carrapatos do Gênero Amblyomma, que são bastante comuns no Neotrópico. No Peru, as espécies encontradas no pelo da anta foram: Amblyomma coelebs, Amblyomma incisumAmblyomma latepunctatum, Amblyomma oblongoguttatum, Amblyomma ovale, e Amblyomma scalpturatum.

Comportamento e ecologia
              A anta é o último elemento da megafauna na Amazônia e constitui-se em um importante dispersor de sementes. É um grande mamífero não-ruminante e frugívoro. Isso se deve principalmente porque a anta defeca na água, o que faz com que o padrão de dispersão também seja único.

              É um animal tipicamente crepuscular e solitário, sendo visto aos pares quando no período de estro das fêmeas e em unidades familiares (sem machos adultos) quando estão com filhote. Em ambientes perturbados pelo homem, pode se tornar estritamente noturno. É capaz de nadar muito bem, inclusive em rios amplos, como o rio Amazonas. Quando anda de forma lenta, sua postura é característica, com a cabeça abaixada, mas quando corre a mantém levantada.

              Foram reportadas quatro tipos de vocalizações, emitidas em contextos específicos: um guincho estridente e flutuante é emitido durante dor e medo; guinchos de baixa frequência e curta duração são emitidos durante comportamento exploratório; sons parecidos com "cliques" parecem usados em contextos de contato social e bufos violentos são sons de ameaça durante encontros agonísticos. A marcação com cheiro também é uma importante forma de comunicação entre os indivíduos, utilizando tanto a urina, como secreções em duas glândulas localizadas na face para fazer isso.

              Seus predadores são grandes felinos como a onça-pintada e a suçuarana, que predam principalmente os filhotes.

Forrageamento e dieta
              As antas são animais frugívoros muito importantes na dispersão de sementes, engolindo-as e depois liberando elas pelas fezes. Forrageiam principalmente em clareiras ou em áreas próximas a cursos d'água. Podem se alimentar de até 42 espécies de vegetais, e em fragmentos de floresta da Mata Atlântica sendo as mais frequentes da família Rubiaceae, Melastomataceae e Arecaceae. No Cerrado e em zonas de transição dessa vegetação com a Mata Atlântica, a anta se alimenta predominantemente de folhas e brotos. Mesmo nessas regiões, pode se alimentar de pequenos frutos de rubiáceas e melastomatáceas, já que são maioria nos estratos mais baixos da floresta. Em regiões alagadas do Pantanal e da Amazônia se alimentam de plantas aquáticas. No Peru, confirmou-se a predominante frugivoria da anta, já que até 33% da dieta era composta por fruto: é uma porcentagem alta para um não-ruminante. Nesse habitat, a anta costuma forragear em florestas de palmeiras, se alimentando principalmente de frutos de Mauritia flexuosa. Nesse mesmo estudo, mostrou que os frutos ingeridos pela anta têm entre 1 a 3 mm de diâmetro, alcançando um máximo de 50 mm de diâmetro. Na parte brasileira da Amazônia, foi constatado a mesma predominância de frutos e um importante papel na dispersão de sementes. A alimentação se constituía principalmente de frutos e sementes de plantas da família Fabaceae, AraceaeAnacardiaceae. Estudos na Venezuela mostraram que a anta prefere comer plantas em clareiras ou em floresta secundária, como forma de evitar as defesas das plantas em áreas mais fechadas.

Reprodução
              A corte de caracteriza por uma aproximação do macho, que cheira e lambe a vulva da fêmea e exibe o reflexo flehmen. O macho tenta se aproximar, mas nas primeiras tentativas a fêmea corre, que é perseguida por ele, que tenta montá-la várias vezes. Isso pode durar por até quatro horas. A partir do momento em que a fêmea se mantém parada enquanto o macho monta em sua anca, a cópula começa. A fêmea abaixa os quadris no momento da cópula, que dura cerca de um minuto. Após o coito, a fêmea pode andar calmamente, seguida de perto pelo macho, que eventualmente a toca e podem descansar juntos, mas a fêmea também pode se comportar de forma agressiva ao macho. A cópula pode ocorrer tanto dentro, quanto fora da água, em animais em liberdade.

              O sistema de acasalamento da anta não foi devidamente definido. É bem provável que exista uma poliginia, pois existe uma tendência de monopólio de territórios de fêmeas por poucos machos. Entretanto, durante o estro, é observada a formação de um par monogâmico. A fêmea entra no cio a cada 50 a 80 dias, e ele dura cerca de dois dias. A gestação dura cerca de 380 dias, parindo um filhote por vez, que possui uma coloração diferente da do adulto: possui uma série de listras brancas horizontais no corpo, que somem quando se tornam adultos. O nascimento de filhotes ocorre a cada 15 meses, em cativeiro.

Conservação
              A espécie é considerada Vulnerável pela lista de espécies ameaçadas da IUCN e não consta na lista do IBAMA, porém, sua população está declinando ao longo de sua área de distribuição geográfica. Entretanto, regionalmente, sua situação pode variar, sendo considerada extinta em várias regiões do Nordeste Brasileiro e Vulnerável na lista de espécies ameaçadas do estado de São Paulo, mas apresenta uma grande densidade populacional no estado do Mato Grosso. Não existem dados sobre as populações dessa espécie, entretanto, como a destruição de seu habitat ainda continua, elas estão em declínio. Mas é notável que em algumas regiões ela ainda pode ser comum, principalmente em matas próximas a rios e lagos. A caça, particularmente em pequenos fragmentos de floresta, é capaz de extinguir a espécie localmente, visto que possui uma baixa taxa de reprodução. A conservação de florestas úmidas, a inibição da caça e ações mitigadoras, para diminuir os atropelamentos desse animal em rodovias que passam perto de áreas florestadas são medidas para se evitar a extinção dessa espécie.

Fotos: 21.






















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