terça-feira, 13 de agosto de 2013

Onça-pintada (Panthera onca)

ZOOLOGIA - 159
CLASSE DOS MAMÍFEROS - 34
ORDEM CARNÍVORA - 15
FAMÍLIA FELIDAE - 8
GÊNERO PANTHERA - 3


ESPÉCIE: Onça-pintada (Panthera onca) - Linnaeus, 1758 [NT].

              A Onça-pintada (Panthera onca), também conhecida por:
  • Pintada, 
  • Onça-pintada <<<
  • Onça-verdadeira, 
  • Jaguar,
  • Jaguarapinima, 
  • Jaguaretê,
  • Acanguçu, 
  • Canguçu, 
  • Tigre
  • Onça-preta, (somente no caso dos indivíduos melânicos), 
              É uma espécie de mamífero carnívoro da família Felidae encontrada nas Américas. É o terceiro maior felino do mundo, após o Tigre e o Leão, e o maior do continente americano. Ocorria nas regiões quentes e temperadas, desde o sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, estando, hoje, porém, extinta em diversas partes dessa região. Nos Estados Unidos, por exemplo, está extinto desde o início do século XX, apesar de relatos de que possivelmente ainda ocorre no Arizona.

              Se assemelha ao Leopardo fisicamente, se diferindo desse, porém, pelo padrão de manchas na pele e pelo tamanho maior. As características do seu comportamento e do seu habitat são mais próximas às do tigre. Pode ser encontrada principalmente em ambientes de florestas tropicais, mas também é encontrada em ambientes mais abertos. A onça-pintada está fortemente associada com a presença de água e é notável, juntamente com o tigre, como um felino que gosta de nadar. É, geralmente, solitária. É um importante predador, desempenhando um papel na estabilização dos ecossistemas e na regulação das populações de espécies de presas. Tem uma mordida excepcionalmente poderosa, mesmo em relação aos outros grandes felinos. Isso permite que ela fure a casca dura de répteis como a tartaruga e de utilizar um método de matar incomum: ela morde diretamente através do crânio da presa entre os ouvidos, uma mordida fatal no cérebro.

              Está ameaçada de extinção e seu número está em queda. As ameaças à espécie incluem a perda e a fragmentação do seu habitat. Embora o comércio internacional de onças ou de suas partes esteja proibida, o felino ainda é frequentemente morto por seres humanos, particularmente em conflito com fazendeiros e agricultores na América do Sul. Apesar de reduzida, sua distribuição geográfica ainda é ampla.

              A Onça faz parte da mitologia de diversas culturas indígenas americanas, incluindo a dos maias, astecasguarani. Na mitologia maia, apesar de ter sido cotada como um animal sagrado, era caçada em cerimônias de iniciação dos homens como guerreiros.

Subespécies
  • Panthera onca arizonensis
  • Panthera onca centralis
  • Panthera onca goldmani
  • Panthera onca hernandesii
  • Panthera onca onca
  • Panthera onca paraguensis
  • Panthera onca peruviana
  • Panthera onca veraecruscis
  • Panthera onca palustris
  • Panthera onca augusta
  • Panthera onca mesembrina
Etimologia
              "Onça" origina-se do termo grego lygx, através do termo latino luncea e do termo italiano lonza. No Brasil, o nome "onça-pintada" é o mais utilizado, sendo que "pintada" é uma alusão à pelagem cheia de manchas e rosetas, ao contrário da outra "onça", a onça-parda.

              "Jaguar" origina-se do termo tupi ya'wara, e pode ser traduzido como "fera" e até "cão", já que o termo era utilizado pelos indígenas para se referir a qualquer "fera" antes da chegada dos europeus. Com a colonização européia e a chegadas dos cães, a palavra passou a ser usada apenas como referência aos cachorros, e "ya'wara-etê" passou a se referir à onça-pintada, originando o termo "jaguaretê". Este último termo significa "fera verdadeira", através da junção de ya'wara (fera) e eté (verdadeiro). "Yaguareté" é um nome usado em países de língua espanhola em que há muitos descendentes dos guaranis, como a Argentina e Paraguai. "Acanguçu" e "canguçu" originam-se do termo tupi akãgu'su, que significa "cabeça grande", através da junção de akanga (cabeça) e usu ("grande"). "Jaguarapinima" vem do tupi ya'wara (onça) e pi'nima (pintada) . "Tigre" é um termo de origem iraniana.

              A designição "pantera", vem do latim, Panthera, que também é o primeiro componente do nome científico. Panthera, em grego, é uma palavra para leopardo, πάνθηρ. A palavra é uma composição de παν- "todos" e θήρ vem de θηρευτής "predador", significando "predador de todos" (animais), apesar de que esta deve ser considerada uma etimologia popular. A palavra deve ter uma origem do Sânscrito, "pundarikam", que significa "tigre".

Taxonomia e evolução
              A onça-pintada é o único membro do gênero Panthera no Novo MundoFilogenias moleculares evidenciaram que o leão, o tigre, o leopardo, o leopardo-das-neves e o leopardo-nebuloso compartilham um ancestral em comum exclusivo, e esse ancestral viveu entre seis e dez milhões de anos atrás; o registro fóssil aponta o surgimento do gênero Panthera entre 2.000.000 e 3.800.000 de anos atrás. Estudos filogenéticos geralmente mostram o leopardo-nebuloso como um táxon basal.

              Baseado em evidências morfológicas, o zoólogo britânico Reginald Pocock concluiu que a onça-pintada é mais próxima ao leopardo. Entretanto, filogenias baseadas no DNA são inconclusivas à posição da onça-pintada em relação às outras espécies do Gênero. Fósseis de espécies extintas do Gênero Panthera, como o jaguar-europeu (Panthera gombaszoegensis) e o leão-americano (Panthera atrox), mostram características tanto da onça-pintada quanto do Leão. Análise do DNA mitocondrial apontam para o surgimento da espécie entre 280.000 e 510.000 anos atrás, bem depois do que é sugerido pelo registro fóssil.

Ancestral asiático
              Apesar de habitar o continente americano, a onça-pintada descende de felinos do Velho Mundo. Dois milhões de anos atrás, a onça-pintada e o Leopardo, compartilharam um ancestral comum na Ásia. No início do Pleistoceno, os precursores da atual onça atravessaram a Beríngia e chegaram na América do Norte: a partir daí alcançaram a América Central e a América do Sul.

Subespécies e Variação Geográfica
              A última delineação taxonômica foi feita por Pocock em 1939. Baseado em origens geográficas e morfologia de crânio, ele reconheceu oito subespécies. Entretanto, ele não teve acesso a um número suficiente de espécimes para fazer uma análise crítica das subespécies, e expressou dúvida sobre a validade de várias delas. Uma reconsideração posterior reconheceu apenas três subespécies.

              Estudos recentes não demonstraram a existência de subespécies bem definidas, e muitos nem reconhecem a existência delas. Larson (1997) estudou a variação morfológica na onça-pintada e demonstrou que existe variação clinal entre a ocorrência sul e norte da espécie, mas a variação dentro das subespécies é maior do que entre elas, e portanto, não há garantia da existência das subespécies. Um estudo genético confirmou a ausência de divisões geográficas entre as populações, apesar de que foi demonstrado que grandes barreiras geográficas, como o rio Amazonas, limita o fluxo gênico entre as populações. Um estudo subsequente, caracterizou mais detalhadamente a variação genética e encontrou diferenças populacionais nas onças da Colômbia.

              As divisões de Pocock (1939) ainda são regularmente citadas em muitas descrições do felino. Seymour reconhece apenas três subespécies.
Panthera onca onca: Venezuela através da bacia amazônica, incluindo
Panthera onca peruviana ("jaguar peruano"): costa do Peru.
Panthera onca hernandesii ("jaguar mexicano"): oeste do México – incluindo
Panthera onca centralis ("jaguar centroamericano"): El Salvador até Colômbia
Panthera onca arizonensis (jaguar do Arizona): sul do Arizona até Sonora, México.
Panthera onca veraecrucis: Centro do Texas até o sudeste do México.
Panthera onca goldmani ("jaguar de Goldman"): península de Yucatán até Belize e Guatemala.
Panthera onca palustris (a maior subespécie, pesando mais de 135 kg): Ocorre no Pantanal, regiões do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Brasil, ao longo da bacia do rio Paraguai no Paraguai e nordeste da Argentina.

              O Mammal Species of the World continua a reconhecer nove subespécies, adicionando Panthera onca paraguensis.

Distribuição geográfica e habitat
              A onça-pintada é presente desde o México, passando pela América Central, até a América do Sul, incluindo toda abacia Amazônica, no Brasil. Os países que a onça-pintada ocorrem são: Argentina, Belize, Brasil, Bolívia,Colômbia, Costa Rica (particularmente napenínsula de Osa), Equador, Guiana Francesa, Guatemala, Guiana, HondurasMéxicoNicarágua, Panamá, ParaguaiPeru, Suriname, Estados UnidosVenezuela. Foi extinta de El Salvador e do Uruguai. Ocorre nos 400 km² do Reserva Natural de Cockscomb em Belize, nos 5 300 km² da Reserva da Biosfera Sian Ka'an, no México, nos 15 000 km² do Parque Nacional de Manú no Peru, nos 26.000 km² do Parque Indígena do Xingu e nos cerca de 1.800 km² do Parque Nacional do Iguaçu, ambos no Brasil, e em muitas outras unidades de conservação ao longo de sua distribuição.

              A inclusão dos Estados Unidos na lista é baseada em ocorrências casuais no sudoeste do país, nos estados do Arizona, Texas e Novo México. No início do século XX, a onça-pintada ocorria ao norte até o Grand Canyon e ao oeste até o Sul da Califórnia. Em 1996 e 2004, guardas florestais no Arizona fotografaram e documentaram onças na parte sul do estado. Entre 2004 e 2007, dois ou três onças foram reportadas por pesquisadores ao redor do Refúgio Nacional da Vida Selvagem Buenos Aires no sul do Arizona. Um deles, chamado "Macho B", já havia sido avistado em 1996. Para que exista uma população permanente e viável nos Estados Unidos, a proibição da caça, a existência de presas, e a conectividade com populações do México são essenciais. Em 25 de fevereiro de 2009, um macho de 53,5 kg foi capturado e marcado em um área a sudoeste de Tucson, que é uma região muito ao norte do que esperado, significando que deva existir alguma população residente no sul do Arizona. Esse ano era o mesmo que foi fotografado em 2004. Em 2 de março de 2009, descobriu-se que esse indivíduo, "Macho B", possuía insuficiência renal, e foi eutanasiado. É a onça-pintada com maior longevidade em estado selvagem.

              O muro fronteiriço Estados Unidos-México pode inviabilizar o estabelecimento de populações de onça-pintada nos Estados Unidos, já que pode impedir o fluxo gênico com indivíduos residentes no México.

              A ocorrência histórica da espécie inclui a metade sul dos Estados Unidos no limite norte, e quase todo continente sul-americano, no limite sul. Atualmente, sua distribuição ao norte recuou 1.000 km, e ao sul, cerca de 2.000 km. Fósseis de onça-pintada, datados entre 40.000 e 15.000 anos atrás, mostram a ocorrência dessa espécie na era do Gelo até o Missouri.

              A onça-pintada habita florestas tropicais na América do Sul e América Central, áreas abertas, e com inundações periódicas, como o Pantanal. Há uma preferência por áreas de floresta densa e chuvosa, sendo escassa em regiões mais secas, como nos pampas argentinos, nas secas savanas do México, e sudoeste dos Estados Unidos. A onça ocorre em florestas tropicais, subtropicais e secas (incluindo, historicamente, as florestas de carvalho nos Estados Unidos). A onça-pintada é dependente de cursos d'água permanentes, vivendo preferencialmente próximo a rios e pântanos, e florestas chuvosas. Não ocorre em altitudes maiores de 3.800 m, e evitam florestas montanas no México e nos Andes.

              Existe evidência de que onças-preta e leopardos introduzidos habitam florestas ao redor de Sydney, Austrália. Moradores da região reportaram a presença de um grande predador de cor negra, mas excursões para capturar o animal falharam em encontrar qualquer vestígio. O ecólogo Johannes J. Bauer acredita de que se tem um grande felino na área, é mais provável que seja um leopardo.

Descrição
              A onça-pintada é um animal robusto e musculoso. Tamanho e peso variam consideravelmente: o peso normalmente está entre 56 a 96 quilos  Os maiores machos registrados pesavam até 160 quilos (tendo o peso de uma leoa ou tigresa), e as menores fêmeas chegavam a ter 36 quilos  As fêmeas são entre 10 a 20 % menores que os machos. O comprimento da ponta do focinho até a ponta da cauda varia de 1,2 metros a 1,95 metros. Sua cauda é a menor dentre os grandes felinos, tendo entre 45 e 75 centímetros de comprimento. Suas pernas também são curtas, consideravelmente mais curtas se comparadas a um tigre ou leão com mesma massa corporal, mas são mais grossas e robustas. A onça-pintada tem entre 63 a 75 centímetros de altura, se medida até a altura dos ombros. Comparada ao leopardo, a onça é maior, mais pesada e atarracada.

              Variações no tamanho são observadas ao longo das regiões de ocorrência da onça, com o tamanho tendendo a aumentar nos indivíduos nos limites norte e sul da distribuição geográfica, com os menores indivíduos sendo encontrados na Amazônia e regiões equatoriais adjacentes. Um estudo realizado na Reserva da Biosfera Chamela-Cuixmala na costa do Pacífico no México, reportou medidas de massa corporal ao redor de 50 kg, não muito maior que uma suçuarana. Em contraste, no Pantanal, a média de peso foi de cerca de 100 quilos (tendo o peso de uma leoa ou tigresa), e as menores fêmeas chegavam ate machos mais velhos não raramente chegavam a pesar mais de 130 quilos (tendo o peso de uma leoa ou tigresa), e as menores fêmeas chegavam até Onças que ocorrem em ambientes florestais frequentemente são mais escuras na coloração da pelagem e menores do que aquelas encontradas em regiões de campos abertos (como no Pantanal), possivelmente, devido ao menor número de presas de grande porte em florestas.

              A forma corporal atarracada e robusta torna a onça-pintada capaz de nadar, rastejar e escalar. A cabeça é grande e a mandíbula é desenvolvida e forte. A onça-pintada possui a mordida mais forte de todos os felinos, capaz de alcançar até 910 kgf. É duas vezes a força da mordida de um leão e só não é maior que a da mordida de uma hiena; tal força é capaz de quebrar o casco de tartarugas. Um estudo comparativo colocou a onça-pintada como em primeiro lugar em força de mordida, ao lado do leopardo-das-neves, e à frente do leão e do tigre. É dito que uma onça é capaz de arrastar um touro de até 360 kg por 8 m e quebrar ossos com as mandíbulas. A onça-pintada caça grandes herbívoros de até 300 quilos em florestas densas, como a anta, e seu corpo forte e atarracado é uma adaptação a esse tipo de presa e ambiente. A cor de fundo da pelagem da onça é uma amarelo acastanhado, mas pode chegar ao avermelhado e marrom e preto, para todo o corpo. As áreas ventrais são brancas. A pelagem é coberta por rosetas, que servem como camuflagem, usando o jogo de luz e sombra do interior de florestas densas. As manchas variam entre os indivíduos: rosetas podem incluir um ou várias pontas em seu interior, e a forma das pintas também pode variar. As manchas e pintas da cabeça e pescoço costumam ser sólidas, e na cauda, elas se unem, de forma a aparecer bandas.

              Enquanto a onça-pintada lembra o leopardo, além dela ser maior e mais robusta, as rosetas são diferentes nessas duas espécies: as rosetas da pelagem da onça-pintada são maiores, menos numerosas, mais escuras, são formadas por linhas mais grossas e possuem pintas no meio delas, que não são encontradas nas rosetas do leopardo. As onças também possuem cabeças maiores e arredondadas, e membros mais atarracados se comparados com os do leopardo.

Melanismo
              Polimorfismo na cor ocorre na espécie. Variedades melânicas são frequentes. Em indivíduos totalmente pretos, quando visto sob a luz e de perto, é possível observar as rosetas.

              A forma totalmente preta (chamada de onça-preta) é mais rara que a forma de cor amarelo-acastanhado, representando cerca de 6 % da população, o que é uma frequência muito maior do que a taxa de mutação. Portanto, a seleção natural contribuiu para a frequência de indivíduos totalmente negros na população. Existem evidências de que o alelo para o melanismo na onça-pintada é dominante.40 Ademais, a forma melânica é um exemplo de vantagem do heterozigoto; mas dados de cativeiro não são conclusivos quanto a isso.

              Apesar de ser conhecida popularmente como onça-preta, é apenas uma variação natural, não sendo uma espécie propriamente dita.

              Indivíduos albinos são muito raros, e foi reportada a ocorrência na onça-pintada, assim como em outros grandes felinos. Como é usual com o albinismo na natureza, a seleção natural mantém a frequência da característica próxima à taxa de mutação.

Ecologia e comportamento
              A onça-pintada é um superpredador, o que significa que está no topo da cadeia alimentar e não é predada no ambiente em que vive. Também pode ser considerada como uma espécie-chave, já que é importante no controle das populações de mamíferos herbívoros e granívoros, contribuindo para a manutenção da integridade dos ecossistemas florestais. Entretanto, qual o efeito que a onça-pintada tem no ecossistema é difícil, pois os dados devem ser comparados com ambientes em que ela não ocorre, e controlar o efeito das atividades humanas em tais ambientes. É aceito que presas de tamanho médio aumentam de população na ausência de superpredadores, e pensa-se que isso tem um efeito cascata negativo no ecossistema. Porém, trabalhos de campo mostraram que isso pode ser uma variabilidade natural, e que o aumento populacional não se sustenta. Portanto, a hipótese do superpredador não é largamente aceita.

              A Onça-pintada também possui um efeito em outros predadores. Ela e a suçuarana ou onça-parda, são frequentemente simpátricos e são estudadas em conjunto. Onde a suçuarana é simpátrica com a onça-pintada, o tamanho da primeira tende a ser menor que o das onça-pintadas locais. Estas últimas tendem a matar presas maiores, geralmente, com mais de 22 quilos  e a suçuarana, menores, entre 2 e 22 quilos. Esta parece ser uma situação vantajosa para a onça-parda. Sua capacidade de expandir seu nicho ecológico, incluindo, de se alimentar de presas menores, a torna mais adaptável que a onça-pintada a ambientes perturbados pelo homem; o que se reflete em sua maior distribuição geográfica e menor risco de extinção.

Dieta, forrageamento e caça
              Como todos os felinos, a onça-pintada é um carnívoro obrigatório, se alimentando somente de carne. É um caçador oportunista, e sua dieta inclui até 87 espécies de animais. A onça pode predar, teoricamente, qualquer vertebrado terrestre ou semi-aquático nas Américas Central e do Sul, com preferência por presas maiores. Ela regularmente predá jacarés, veados, capivaras, antas, porcos-do-mato, tamanduás e até mesmo sucuris. Entretanto, o felino pode comer qualquer pequena espécie que puder pegar, como ratos, sapos, aves(principalmente mutuns), peixes, preguiças, macacos e tartarugas; um estudo conduzido no Santuário de Cockscomb, em Belize, revelou que a dieta das onças era constituída principalmente por tatus e pacas. Em áreas mais povoadas ou com grande número de pecuaristas, a onça-pintada preda o gado doméstico, e muitas vezes parece ter um preferência por esse tipo de presa (no Pantanal, foi constatado que até 31,7% de sua alimentação era constituída por bezerros de gado bovino).

              A onça-pintada geralmente mata com uma mordida no pescoço, sufocando a presa, como é típico entre os mesmo do gênero Panthera, mas às vezes ela mata por uma técnica única entre os felinos: ela morde o osso temporal no crânio, entre as orelhas da presa (especialmente se for uma capivara) com os caninos, acertando o cérebro. Isto também permite quebrar cascos de tartaruga, após as extinções do Pleistoceno, quelônios podem ter se tornado presas abundantes em seu habitat. mordida na cabeça é empregada em mamíferos, principalmente, enquanto que em répteis, como jacarés, a onça-pintada ataca o dorso do animal, acertando a coluna cervical, imobilizando o alvo. Embora capaz de rachar o casco de tartarugas, a onça pode simplesmente esmagar o escudo com a pata e retirar a carne. Quando ataca tartarugas-marinhas que vão nidificar na praia, a onça ataca a cabeça, e frequentemente decapita o animal antes de arrastá-la para comer. Ao caçar cavalos, a onça pode pular sobre o dorso, colocar uma pata no focinho e outra na nuca, de forma de deslocar o pescoço. Moradores de ambientes em que ocorre a onça-pintada já contaram anedotas de uma onça que atacou um par de cavalos, e depois de ter matado um, ainda arrastou o outro, ainda vivo. Em presas pequenas, como pequenos cães, uma pancada forte com as patas é suficiente para matar.

              A onça-pintada caça em espreita e formando emboscadas, perseguindo pouco a presa. O felino anda de forma lenta, ouvindo e espreitando a presa, antes de armar a emboscada ou atacá-la. Ela ataca por cima, através de algum ponto cego da presa, com um salto rápido: as habilidades de espreita e emboscada dessa espécie são consideradas inigualáveis tanto por povos indígenas quanto por pesquisadores, e tal capacidade deve derivar do papel de ser um superpredador nos ambientes em que vive. Quando arma a emboscada, a onça pode saltar na água enquanto persegue a presa, já que é capaz de carregar grandes presas nadando, sua força permite levar novilhos para a copa das árvores.

              Após matar a presa, a onça arrasta a carcaça para alguma capoeira ou outro lugar seguro. Começa a comer pelo pescoço e peito, em vez de começar pelo ventre. O coração e pulmões são consumidos, seguidos pelos ombros. O requerimento diário de comida de um indivíduo com 34 kg (que é menor peso encontrado em um indivíduo adulto) é de 1,4 kg. Para animais em cativeiro, pesando entre 50 a 60 kg, mais de 2 kg de carne são recomendados. Em liberdade, o consumo é naturalmente mais irregular: felinos selvagens gastam considerável energia e tempo para obter alimento, e podem comer até 25 kg de carne de uma só vez, seguidos por longos períodos sem se alimentar. Ao contrário das outras espécies do Gênero Panthera, a onça-pintada raramente ataca seres humanos. Muitos dos escassos casos reportados mostram que tratavam-se de indivíduos velhos ou feridos, com dentes danificados. Às vezes, se feridas ou ameaçadas, as onças podem atacar os tratadores em zoológicos.

Território e comportamento social
              Como muitos felinos, a onça-pintada é solitária, exceto quando formam pequenos grupos de mãe e filhotes. Adultos encontram-se somente no período de corte e acasalamento (embora socializações não relacionadas a esses eventos foram observados anedoticamente) e mantém grandes territórios para si. Os territórios das fêmeas, que têm entre 25 e 40 km² de área, podem se sobrepor, mas os animais geralmente se evitam nesses locais. Machos podem ter áreas duas vezes maiores do que essas, variando o tamanho de acordo com a disponibilidade de recursos, e seus territórios nunca se sobrepõem. A onça-pintada usa marcas de arranhões, urina e fezes para marcar território.

              Como outros grandes felinos, a onça é capaz de rugir e faz isso para repelir competidores: ataques com indivíduos intrusos podem ser observados em liberdade. Seu rugido lembra uma repetitiva tosse, e as vocalizações podem consistir também de grunhidos. Brigas por cópulas entre machos podem ocorrer, mas são raras, e comportamentos evitando a agressão podem ser observados. Quando ocorre, o conflito é tipicamente territorial: o território de um macho geralmente compreende o de uma ou duas fêmeas, e eles não toleram a invasão por intrusos.

              A onça-pintada é geralmente descrita como um animal noturno, mas é, mais especificamente, crepuscular (pico de atividade é durante a madrugada ou o crepúsculo). Ambos os sexos caçam, mas os machos se deslocam para mais longe do que as fêmeas, diariamente, o que é condizente com seus grandes territórios. A onça-pintada pode caça durante o dia se existe caça disponível e um felino relativamente enérgico, com cerca de 50 a 60% do tempo mantendo-se ativo. A natureza arredia e a inacessibilidade de seus habitats preferidos, torna a onça-pintada um animal difícil de ser avistado e de ser estudado.

Reprodução e ciclo de vida
              As fêmeas da onça-pintada alcançam a maturidade sexual com cerca de 2 anos de idade, e os machos entre 3 e 4 anos. Acredita-se que esse felino copule durante todo o ano em estado selvagem, embora os nascimentos se concentrem em épocas que as presas abundem. Pesquisas com machos em cativeiro suportam a hipótese de que os acasalamentos ocorrem durante o ano todo, com nenhuma variação em características do sêmen e da ejaculação: baixo sucesso reprodutivo também tem sido observado em cativeiro. O estro dura entre 6 e 17 dias, em um ciclo de 37 dias, e fêmeas demonstram o período fértil com marcação de urina e aumento nas vocalizações. Ambos os sexos se deslocam mais durante o período da corte.

              O casal se separa após o ato sexual, e as fêmeas providenciam todo o cuidado parental. A gestação dura entre 93 e 105 dias: elas podem dar à luz a até quatro filhotes, mas o mais comum é nascerem dois de cada vez. A mãe não tolera a presença de machos após o nascimento dos filhotes, visto o risco de infanticídio: tal comportamento também se observa no tigre.

              Os filhotes nascem cegos, e abrem os olhos após duas semanas. São desmamados após três meses, mas podem permanecer no ninho por até 6 meses, quando passam a acompanhar a mãe nas caçadas. Eles continuarão com ela até os dois anos de idade, antes de estabelecerem um território sozinhos. Jovens machos são primeiramente nômades, competindo com outros mais velhos até que conseguem obter um território. Em estado selvagem, a onça-pintada vive entre 12 e 15 anos de idade, mas em cativeiro, pode viver até mais de 23 anos, sendo um dos felinos com maior longevidade.

Conservação
              Atualmente, é classificada, pela União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, como "quase ameaçada", visto sua ampla distribuição geográfica. A caça é proibida na maior parte dos países onde ocorre a espécie: Argentina, ColômbiaGuiana Francesa, Honduras, NicaráguaPanamá, Paraguai, Venezuela, Estados Unidos e Uruguai; sendo que a caça de "animais-problemas" (aqueles que atacam o gado doméstico) é permitida no Brasil, Costa Rica, Guatemala, México e Peru. Na Guiana e no Equador, a espécie carece de proteção legal.

              Estudos detalhados realizados pela Wildlife Conservation Society mostraram que a espécie perdeu 37 por cento da sua distribuição histórica, e possui um status de conservação desconhecido em 17 por cento da sua área de ocorrência atual. Encorajador para a conservação da espécie, é de que a probabilidade de sobrevivência a longo prazo é considerada alta em 70 por cento de seu habitat, notadamente nas regiões da Amazônia, do Gran Chaco e do Pantanal. As maiores ameaças a onça-pintada são a fragmentação de seu habitat e a caça. Em áreas mais antropizadas, atropelamentos em rodovias que cortam unidades de conservação são também fatores que diminuem significativamente as populações.

              A caça para obtenção para o comércio de peles já foi um grande problema na conservação da espécie: na década de 1960, houve uma diminuição significativa no número de indivíduos, pois anualmente mais de 15 000 peles foram exportadas ilegalmente da Amazônia Brasileira. A implementação da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção, em 1973, resultou numa forte queda do comércio de peles.

              Entretanto, é a caça por parte de fazendeiros, que considera o animal uma ameaça às criações de gado, uma das atividades que mais tem contribuído para extinções locais da espécie. Em áreas próximas a grandes populações humanas, como em Guaraqueçaba, as onças-pintadas acabam mostrando uma preferência pelo gado doméstico, talvez por uma diminuição na densidade populacional de suas presas habituais, o que acaba incomodando os criadores de gado.

              Suas populações variam bastante ao longo de toda sua distribuição geográfica, tal como seu grau de extinção. Em Belize, estimou-e que existiam cerca de 600 a mil onças no país; no México, há variação do grau de conservação ao longo do país , sendo que, em 1990, por exemplo, na província de Chiapas, havia 350 onças; e, por fim, existiam entre 465-550 na Reserva da Biosfera Maya na Guatemala . No Brasil, é considerada "vulnerável" pela lista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, entretanto, seu status de conservação varia pelo país, sendo considerada "criticamente em perigo" no estados de São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, o que alerta para uma extinção da espécie nesses estados em um futuro muito próximo. As maiores populações brasileiras encontram-se na Amazônia e no Pantanal (apesar dos dados serem insuficientes e difíceis de se obter), sendo que, em outros biomas, como na caatinga (com uma estimativa de 356 animais no total) e Mata Atlântica, a situação é crítica. Na Mata Atlântica, a espécie está restrita a unidades de conservação, e em número muito reduzido: no Parque Nacional do Iguaçu, um dos últimos locais no sul do Brasil onde ela ainda é encontrada, estima-se que existam no máximo 12 indivíduos.

              As estratégias de conservação da onça-pintada são dificultadas pela intensa fragmentação de seu habitat em algumas regiões. Algumas unidades de conservação em que existem onças estão isoladas e abrigam um número muito reduzido de indivíduos. É necessário que se criem "corredores" unindo tais unidades de conservação, impedindo, inclusive, que os animais precisem sair de áreas florestadas e causar problemas às populações rurais. Foi criada a iniciativa, idealizada por Alan Rabinowitz, de que se una todas as áreas de ocorrência da onça-pintada, desde o norte do México até a América do Sul, constituindo o chamado Paseo del Jaguar.

Aspectos culturais

Culturas mesoamericanas
              Em culturas pré-colombianas das Américas Central e do Sul a onça-pintada foi um símbolo de força e poder. Entre as culturas andinas, o culto ao jaguar foi disseminado pela cultura Chavín e passou a ser aceito na maior parte do que é hoje o Peru a partir de 900 a.C. A cultura Moche, do norte do Peru, utilizava a onça como símbolo de poder em muitas das suas cerâmicas.

              Na Mesoamérica, a cultura Olmeca, precoce e influente na região da Costa do Golfo, aproximadamente contemporânea da cultura Chavín, desenvolveu um distinto"homem-jaguar" motivo de esculturas e figuras que mostram onças estilizadas ou seres humanos com características de onça. Na civilização maia, acreditava-se que a onça-pintada facilitava a comunicação entre os vivos e os mortos e protegia a família real. Os maias viam esses felinos poderosos como os seus companheiros no mundo espiritual. Uma série de governantes maias tinham nomes que incorporavam a palavra maia para a onça-pintada, b'alam. A civilização asteca compartilhou essa imagem do jaguar como representante do governador e como guerreiro. Os astecas formaram uma classe de guerreiros de elite conhecidos como guerreiros jaguares. Na mitologia asteca, a onça-pintada foi considerada o animal totêmico do poderoso deus Tezcatlipoca.

Cultura contemporânea
              A onça-pintada ainda é amplamente usada em manifestações simbólicas. É o animal nacional da Guiana, e é representada em seu brasão. A bandeira do Departamento do Amazonas, da Colômbia, representa uma silhueta preta de onça pulando em direção a um caçador. A onça-pintada também é representada na cédula de cinquenta reais, no Brasil. Mesmo em indígenas sul-americanos contemporâneos a onça faz parte da mitologia e folclore, sendo um animal que é capaz de dar aos homens, o poder sobre o fogo.

              O sinônimo de onça-pintada, "jaguar", é utilizado amplamente em nomes de marcas, como no carro Jaguar. Esse mesmo nome também é utilizado em franquias esportivas, como no time da National Football League, Jacksonville Jaguars, e no time de futebol mexicano, Jaguares de Chiapas. Uma banda de rock ganhadora do Grammy, "Jaguares", teve a escolha de seu nome baseada na imponência da onça-pintada, conhecida como jaguar em vários países da América Latina.

              Uma onça-preta perdida em uma cidade da América do Sul é o personagem central no romance de 1941, Black Alibi, de Cornell Woolrich.

              Nos Jogos Olímpicos de Verão de 1968, na Cidade do México, uma onça-pintada vermelha foi o primeiro mascote oficial.

Fotos: 40









































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